Não é frescura! Como eu superei a depressão

São Paulo, maio de 2016. Eram 14h de uma tarde muito fria. Estava na minha quitinete, deitado na cama, debaixo das cobertas . Meu celular toca, era a minha mãe. Eu não atendo. Checo o Facebook, o Instagram e o e-mail. Haviam várias mensagens, mas não tenho vontade de responder nenhuma. Então, resolvo dormir mais. Quando acordo, o relógio marcava 19h. Ligo o aplicativo ifood, peço uma pizza de peperoni, uma coca 600 ml e um chocobread do Dominós. Recebo a comida, pago R$ 43,70 no cartão de crédito e me alimento como se aquele fosse a última refeição do mundo. Depois, volto a dormir. Acordo novamente às 2h da manhã para ficar navegando na Internet sem rumo. Sem rumo mesmo, da mesma forma que eu estava.
 
Essa história descreve um dos períodos mais difíceis da minha vida, quando estava em depressão e sozinho. Ao mesmo tempo que morava numa cidade de milhões de pessoas, não tinha ninguém ao meu lado. Como muita gente sabe, a depressão é considerada a doença do século 21. E ela não é brincadeira, tampouco frescura. O problema atinge uma considerável parcela dos brasileiros e eu vou contar como superei a minha. Espero que ao menos uma pessoa que esteja passando pelo problema leia esse texto e eu possa ajudá-la de alguma maneira.
 
Antes de falar como eu superei a depressão, preciso voltar na sua causa. Sabe quando você tem um sonho, abdica de um monte de coisa a favor dele, coloca sua expectativa bem no topo, mas as coisas não saem como o esperado? Comigo aconteceu exatamente assim. Me senti como se tivesse construído um lindo castelo de areia, mas aí veio uma tempestade e acabou com tudo num piscar de olhos. Em outras palavras, me mudei de BH para São Paulo com o objetivo de voar muito alto e passar ao menos 5 anos na capital paulista. Chegando lá, no entanto, as coisas deram errado, eu fiquei sem trabalho e, em seguida, muito mal. Muito mal mesmo.
 
Quando você vive esse cenário totalmente adverso, parece que o universo entende o recado direitinho. Tudo de bom some: pessoas, dinheiro, oportunidade, inteligência e mais mil e uma coisas. Você não consegue enxergar uma luz no fim do túnel. Então, me restou o conforto da cama e do cobertor, que se tornaram meus grandes e únicos amigos. Fiquei em um quarto escuro, sem vontade de levantar, de falar com as pessoas ou procurar um novo emprego. Nem mesmo tive vontade de buscar uma ajuda profissional. Só dormia entre 14h e 18h por dia, ia ao banheiro, tomava um banho, entrava na internet para ver coisas inúteis e comia porcarias de maneira compulsiva.
 
Me vi em um estado que foi fácil de entrar, mas difícil de sair. Pelo andar da carruagem parece, mas não era uma depressão profunda, ou seja, meu caso não era grave. Eu tinha momentos de alegria, em que achei que ficaria bem, mas voltava mesmo era para a cama e o quarto escuro. Nesse processo tão dolorido, busquei me espiritualizar. Passei a acompanhar o programa do Padre Fábio, o Direção Espiritual, pelo YouTube. As suas palavras realmente tocavam meu coração. Em um dos programas, o Padre falou que a forma como encaramos a tristeza faz toda diferença. Alguns entendem a tristeza como uma punição; outros como benção.
 
Eu, de maneira lenta, passei a entender a depressão como uma benção. Se eu estava naquele estado de tristeza profunda era porque meu corpo estava tentando me dizer algo. E então fui entender o que meu corpo estava tentando me dizer exatamente. Dessa forma, optei por entender aquele momento como uma dádiva, mesmo não fazendo o menor sentido ou não tendo uma explicação racional. Com isso, tive clareza que a tristeza me fazia perceber as coisas que realmente importam nessa vida. Era como se Deus estivesse conversando comigo, apontando os caminhos para os quais eu deveria prestar atenção.
 
Isso por si só já foi um grande passo para eu sair daquela condição. Mas, mesmo com essa consciência, as coisas não melhoravam e eu voltei a ficar ainda pior. Acabei indo embora de São Paulo e voltando para Minas. Só que, infelizmente, eu também trouxe a depressão na bagagem. Nesse processo, acredito que a minha grande sorte eram os picos de felicidade que existiam no meio da doença, e duravam até 48h. Então, nesse curto período eu mudava minha alimentação radicalmente, fazia mil atividades físicas, falava com as pessoas, postava nas redes sociais como se estivesse super bem (mentindo pra mim mesmo), ia a eventos de marketing e negócios que amo… Enfim, voltava a ser o que sempre fui.
 
O problema é que depois desse rompante de alegria eu voltava ao meu estado depressivo. No entanto, depois de ficar mais ou menos uns 12 meses alternando esses momentos tristes com os picos de felicidade, finalmente eu superei a depressão. Hoje, livre do problema, tenho a consciência de que é algo em que preciso ter uma vigilância constante para o resto da vida. Isso é óbvio porque quem já teve tem mais chances de voltar a ter do que quem nunca enfrentou o problema.
 
Além do fato de entender a tristeza como um benção e um fator que me conduz a atitudes que realmente valem a pena, comecei a perceber e praticar o poder da gratidão. Sou jovem, saudável, praticante de esportes, com acesso a informação, ao sol, à comida, a roupas, a transporte a banho; eu tenho pernas, braços, enxergo, ouço, falo; enfim, eu sou um ser vivo e pensante nesse mundo e isso é algo incrível e mágico. Pouco me importa não ter a resposta para as grandes questões da humanidade (Quem somos nós? O que estamos fazendo aqui?). Se nem a arte, a religião, a filosofia e a ciência conseguiram respondê-las, quem sou eu?
 
Com efeito, foi fundamental me ancorar nas minhas crenças e valores, que podem ser simbolizadas na fé e em Deus. Quanto a Ele, eu amo a visão do filósofo Spinoza, que descreve um Deus que encontramos nos rios, nas montanhas, no olhar de uma criança e principalmente dentro dos nossos corações. Outro fator poderoso que me libertou da depressão foi a conexão com pessoas incríveis, principalmente aquelas prósperas, otimistas e maduras. Eu adoro me cercar de gente que subiu mais escadas (na escadinha da evolução) que eu, porque com elas bebo de uma fonte repleta de maravilhas que ainda desconheço.
 
Com tudo isso, acabei mudando minha forma de pensamento como um todo. Aí, naturalmente, fiquei curado. Só que eu sei que infelizmente ainda tem muita gente enfrentando esse mesmo monstro. E é principalmente para essas pessoas que escrevo porque rogo a Deus para me dar a habilidade de ter empatia e compaixão. De me colocar no lugar dessas pessoas. Para me fazer Seu instrumento para escrever textos ou gravar vídeos que eventualmente possam tocar o coração de alguém que está vivenciando esse problema. Inclusive, creio fortemente na presença de gênios que não estão mais nesse plano que me visitaram e me sopraram algumas coisas contidas nessas palavras.
 
Quem acha que depressão é bobagem, precisa deixar de ser egoísta. Pelo menos uma vez na vida, tem de se colocar no lugar do outro e imaginar que aquela dor poderia ser a própria dor. Depressão não é preguiça, tampouco culpa. E você deve estar se perguntando: mas não buscou ajuda de um profissional, Renato? Sim, busquei, mas no meu caso (eu escrevi meu caso, ou seja, pode não dar certo para outra pessoa) não deu certo. Comecei a tomar remédio e a droga me derrubou. A partir daí larguei o remédio, busquei um chá que me fez bem, me espiritualizei, me conectei com gente incrível e passei a agradecer e entender a tristeza como algo legal. É lógico que também vivi o luto de passar por essa situação difícil, mas me desconectei de tudo de ruim. Por isso, se você tiver passando por esse problema e leu até aqui, acredite que existe uma luz no fim do túnel. Vai ficar tudo bem. De verdade.
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